segunda-feira, 1 de abril de 2013

LIMITES NOS FILHOS

Matéria publicada no Jornal Folha de São Paulo, 12 de março de 2013.

Por que é tão difícil colocar limites no seu filho

JULIANA VINES

Os pequenos tiranos de hoje são resultado do encontro de duas gerações sem limites, diz Tania Zagury, mestre em educação e autora de "Limites Sem Trauma" (Record).
"Quem está criando filhos agora são os que já tiveram liberdade na infância e estão frente a uma situação que não vivenciaram: os filhos deles também querem fazer de tudo. A liberdade da criança acaba tirando a dos pais."
Zagury fez um estudo com 160 famílias no início dos anos 1990, quando já identificava o surgimento da tirania infantil. "Os pais dos anos 1980 tinham sido criados de forma dominadora e queriam uma educação liberal."
Entre os anos 1970 e 1980 a criança se tornou ator da história, segundo Mary Del Priore, organizadora do livro "História das Crianças no Brasil" (Contexto).
A tendência começou depois da Segunda Guerra. Ao mesmo tempo, surgiram leis de proteção à infância, jovens ganharam visibilidade no cinema e na publicidade e as famílias diminuíram.
"A mulher [que trabalha fora e começa a tomar pílula] passa a querer ter menos filhos para criá-los bem. E a criança ganha lugar como consumidora. Há uma transformação no papel dos pais", afirma a historiadora.
CRISE DE AUTORIDADE
O problema é que a balança foi toda para o outro lado: da rigidez à frouxidão, analisa o psicanalista Renato Mezan, professor da PUC-SP. "Por um lado, é um avanço social, há mais diálogo na família e mais decisões consensuais. Mas, por outro, os pais têm medo de exercer a autoridade legítima. É uma crise de autoridade generalizada."
Há também uma inversão de papeis, segundo a pedagoga Adriana Friedmann, doutora em antropologia e coordenadora do Nepsid (Núcleo de Estudos e Pesquisas em Simbolismo, Infância e Desenvolvimento).
"Há uma 'adultização' precoce e, ao mesmo tempo, um prolongamento da infância", diz. "Não dá para culpar só os pais. Todos são vítimas da tendência sociocultural. As crianças estão expostas a um grande número de estímulos e influências da mídia."
Para a psicanalista Marcia Neder, os pais se sentem obrigados a mimar os filhos e há muitas exigências em torno de um ideal da mãe perfeita. "Fica difícil dizer 'não' em uma sociedade que trata a criança como um deus."
A blogueira Loreta Berezutchi, 29, sente na pele as cobranças do que ela chama de "filhocentrismo". Loreta é mãe de Catarina, 3, e Pedro, 5. O menino não dá muito trabalho, mas Catarina...
"Ela está sempre batendo o pé. Empaca quando não quer sair de casa e quer escolher a roupa que vai usar. Às vezes, quer blusa de frio no calor e é difícil fazê-la mudar de ideia", conta.
Além de comprar "as brigas que valem a pena" com a filha (como não deixá-la viver só de bolacha e iogurte), Loreta tenta não ser guiada pela concorrência que há entre mães blogueiras para ver quem é a "mais mãe", ou seja, a que mais paparica sua prole (ela escreve no www.bagagemdemae.com.br).
"Na hora de apontar o dedo, todo mundo aponta. 'Ah, meu filho só come comida saudável e o seu toma refrigerante'. Você se sente culpada por não ser o modelo de mãe que cozinha para o filho, dá água mineral etc.", diz.
Ela admite que sua vida hoje gira em torno dos rebentos e acha que faz parte do pacote. "Eu estava preparada para isso quando decidi ser mãe. Mas faz falta ter uma vida social que não os inclua."
Enquanto a criança ainda é um bebê, é normal que a vida da família seja pautada pelas necessidades dela, de acordo com Zagury. "Mas, a partir dos três, quatro anos não precisa ser assim. Os pais devem dar proteção aos filhos, não sua própria vida."
MAMÃE EU QUERO
Encontrar o equilíbrio pode ser complicado quando a criança tem entre dois ou três anos, aponta Friedmann. "Elas estão na fase de se descobrirem como pessoas com identidade única. Nesse período, há uma necessidade da afirmação do eu, por isso experimentam um jogo de força com os adultos."
É fundamental os pais terem clareza sobre quais regras vão impor aos filhos. Só assim conseguirão ser firmes.
"Os limites devem ser colocados na primeira infância, quando se constroem as bases da personalidade", acrescenta Friedmann.
A psicopedagoga Maria Irene Maluf, membro da Associação Brasileira de Psicopedagogia, lembra que regras dão segurança. "A opinião da criança não deve ser ignorada, mas ela não sabe escolher o que é melhor para ela. Ninguém nasce autônomo."
No fundo, mesmo os mais rebeldes gostam de saber até onde podem ir, complementa a também psicopedagoga Betina Serson. Para quem tem um déspota mirim em casa, ela recomenda começar a disciplina estabelecendo uma rotina (veja mais orientações ao lado).
"A ideia de que colocar limites pode ser danoso à criança é 'idiota'", afirma Mezan. Segundo ele, a inexistência de regras gera ansiedade dos dois lados.
"Qualquer renúncia ao prazer imediato passa a ser vivida como uma frustração insuportável pela criança. Muitas vezes, porque seu desejo é logo satisfeito, ela acaba valorizando pouco o que tem", afirma.
Editoria de Arte/Folhapress

TUDO AO MESMO TEMPO

Matéria publicada no Jornal Folha de São Paulo, 26 de março de 2013.

Tudo ao mesmo tempo

ROSELY SAYÃO

Durante as férias escolares e ao final do período recebi mensagens comentando a respeito de um mesmo tema: a presença de pais com crianças pequenas em locais e horários destinados especificamente a adultos.
Em quase todas essas mensagens, os leitores relataram cenas que testemunharam e os deixaram incomodados. Vale ressaltar que a maioria dos leitores que me escreveu também tem filhos e não concordou com a escolha feita pelos pais de se fazerem acompanhar pelas crianças em programas e horários impróprios para elas.
Crianças acordadas na madrugada, presentes em festas realizadas em hotéis de férias, em jantares ocorridos altas horas da noite, em bares e até em sessões de cinema com projeção de filmes que exigiam muita concentração foram situações relatadas por vários leitores.
Algumas pessoas se incomodaram com a simples presença das crianças, porque consideram que as situações eram impróprias para elas e, possivelmente, as afetariam de alguma maneira.
Outras se incomodaram porque as crianças têm reações típicas e naturais na infância --choram, reclamam, querem mexer no que está ao seu alcance-- e elas estavam em locais onde isso não deveria acontecer. Na última sessão de um filme, no cinema, por exemplo.
Recebi também a mensagem de uma avó que notou que a sua filha, com um bebê de menos de um ano, estava se comportando da mesma maneira, ou seja, levando o bebê a todos os lugares que costumava ir sozinha, como shopping, supermercado, restaurante etc. E, como ela, a avó, está sempre disponível para ficar com a neta, conversou com a filha e disse que não considerava certo levar o bebê a lugares tão barulhentos e movimentados.
A resposta da filha deixou essa avó pensativa, o que a levou a me escrever. A filha respondeu que o tempo de se anular por causa dos filhos havia acabado.
"É isso mesmo?", perguntou-me a avó.
A questão também me fez pensar bastante. Gostaria de compartilhar minhas reflexões com você, caro leitor. Talvez estejamos vivendo em uma época que nos leva a cometer alguns equívocos e a fazer confusões. Ter filhos e comprometer-se com esse fato pode estar numa dessas zonas de confusão.
Sim, muitas pessoas, mulheres principalmente, já anularam suas vidas por causa dos seus filhos.
Quer dizer: a partir do momento em que se tornaram mães, essas mulheres transformaram esse papel no quase único de sua vida. E, é bom lembrar, isso não prejudicou apenas a mulher, mas os filhos também. Sabe o que significa carregar nas costas todos os anseios de realização da sua mãe?
Bem, mas ter filhos acarreta algumas renúncias. A maioria delas é de natureza temporária, mas, ainda assim, é renúncia.
O problema é que vivemos em uma época de apologia do prazer, da satisfação imediata e da felicidade. E renúncias não combinam com isso, não é verdade?
Renunciar a algumas coisas se transformou em sinônimo de se anular, portanto. E esses são dois conceitos bem diferentes.
Casar significa renunciar à vida de solteiro; ter filhos significa renunciar à vida sem filhos. Será que aceitamos essas premissas, entre outras, nestes tempos em que é imperioso buscar a felicidade completa, nos moldes em que entendemos hoje essa palavra? Pelo jeito, não. Queremos tudo ao mesmo tempo e agora. Como os adolescentes.

ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (Publifolha)

quarta-feira, 20 de março de 2013

QUANDO OS DEDOS NÃO VÃO

Matéria publicada no Jornal Folha de São Paulo, 12 de março de 2013.
Quando os dedos não vão

Suzana Herculano-Houzel

Se você não aprendeu nada de radicalmente novo nos últimos tempos, recomendo fortemente a experiência.

Não porque `aprender mantém o cérebro vivo`, lema da tal da Neuróbica (ginástica para o cérebro).

Como se aprender a escovar os dentes com a outra mão fosse mudar sua qualidade de vida sem que você tivesse quebrado a mão de sempre.

Mas como um experimento: para ter uma ideia de como é para um bebê ou uma criança pequena conquistar o controle dos dedos.

A enorme maioria do que fazemos hoje com as mãos é formada de movimentos muito bem aprendidos e repetidos anos a fio, levados à perfeição pelo simples hábito.

Isso não quer dizer, contudo, que seu repertório de movimentos possíveis acabou.

Pelo contrário: o número de graus de liberdade de movimentos dos dedos e das mãos é enorme, e o número de combinações possíveis, maior ainda -e, para muitos deles, ainda não há um programa motor pronto em seu cérebro. Mas qualquer hora é hora de aprender.

E então vem aquela sensação que todo adulto deveria sentir na carne, no próprio cérebro, para apreciar o esforço de quem está começando.

Uma sensação que toda pessoa alfabetizada já teve, mas se esqueceu: a sensação de que os dedos `não vão` quando você tenta comandar o lápis com a mão.

É uma sensação de nó cerebral, empacamento, enquanto dá para imaginar neurônios do córtex motor e dos núcleos da base disparando ordens a torto e a direito em busca da combinação mágica de comandos que fará os dedos atingirem seu objetivo.

Gosto de ilustrar isso para professores do ensino fundamental propondo-lhes que desenhem uma estrela vendo somente uma imagem no espelho de sua mão segurando o lápis sobre o papel.

Isso inverte todas as correspondências aprendidas ao longo da vida entre a visão da sua mão e as ordens motoras necessárias para desenhar. Os professores voltam à infância e começam a rir -ou a gritar em exasperação- quando constatam que seu cérebro empacou. Os seus dedos `não vão`. Até que... vão. Dada a oportunidade, seu cérebro encontra o caminho, por tentativa e erro, mesmo.

Lembrei-me disso na semana passada, em minha primeira aula oficial de violão clássico, pois queria aprender dedilhado e ir além dos acordes fáceis do meu violão popular autodidata. Meu cérebro empacou na aula. Mas, com um pouco de insistência, a sensação da conquista dos meus dedos é maravilhosa.

TRAVA NA EDUCAÇÃO

Matéria publicada no Jornal Folha de São Paulo, 05 de março de 2013.
Trava na educação
HÉLIO SCHWARTSMAN
SÃO PAULO - A notícia de que a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo está convocando para atuar como professores temporários docentes que não conseguiram acertar nem a metade das questões do último processo seletivo da pasta tem duplo significado.
Em primeiro lugar, é bem-vinda a admissão, pelas autoridades educacionais, de que a realidade existe. Quando o modelo de teste para temporários foi introduzido, em 2009, a secretaria dizia que a prova seria eliminatória; agora a classifica como "classificatória".
Não é preciso ser nenhum mestre do empirismo para constatar que o salário e as condições de trabalho oferecidos às pessoas incumbidas de educar as próximas gerações de paulistas não estão atraindo multidões. Como, por definição, o Estado só pode contratar quem está disposto a aceitar o cargo, a utilização dos "reprovados" torna-se uma necessidade prática. A alternativa seria deixar milhares de alunos sem determinadas aulas, o que é provavelmente pior do que ter um mau professor.
A segunda mensagem é mais inquietante: dos 139 mil temporários que se submeteram ao último exame, no fim de 2012, 39 mil (28%) tiveram um desempenho ruim, acertando menos de 50% das questões, que, vale observar, não visavam a selecionar Prêmios Nobel. São pessoas que já atuavam no sistema e nele deverão permanecer. Mais do que isso, é gente formada pelo sistema.
Considerando que existe um grande corpo de pesquisas em educação mostrando que o nível do professor é uma das mais importantes, se não a principal, variável a impactar na excelência do ensino, nós chegamos a um ponto em que a má qualidade do sistema se tornou sua própria trava.
Sair dessa armadilha não é trivial e exige tempo. O horizonte é o de gerações, não administrações. O que preocupa, porém, é que não se percebe nas autoridades atitudes resolutas para começar a reverter o quadro.

ADOÇÃO DE COTAS ENCONTRA RESISTENCIA NA USP

Matéria publicada no Jornal Folha de São Paulo, 05 de março de 2013.
Adoção de cotas enfrenta resistência na USP

FÁBIO TAKAHASHITALITA BEDINELLIDE

Docentes, entidade sindical e movimento negro da universidade criticam proposta feita pelo governo do Estado

Polêmica pode influir na decisão do conselho sobre a implantação da política; projeto precisa ser aprovado até junho

Professores de diferentes segmentos da USP divulgaram nos últimos dias posições contrárias ao projeto de cotas para alunos de escolas públicas, desenhado pelos reitores das universidades e pelo governo do Estado.

Entre os críticos estão, por exemplo, docentes de destaque da área de humanas, o diretor interino da Faculdade de Medicina e a associação de professores -as argumentações são diferentes.

Apesar de ter sido pensado pelos administradores das escolas, a proposta, que tem o aval do governador Geraldo Alckmin (PSDB), só entrará em vigor se for aprovada internamente nos conselhos da USP, Unesp e Unicamp.

Uma das inovações é a adoção de um curso intermediário, de dois anos, para os melhores estudantes de escolas públicas. Após essa etapa, os formados poderiam escolher as vagas oferecidas em cada curso das universidades, sem a necessidade do vestibular.

Em carta aberta enviada a professores e alunos, as professoras titulares (topo da carreira) Lilia Schwarcz, da antropologia, e Maria Helena Machado, da história, criticam o formato do programa.
Elas veem problemas no curso intermediário, que será, em parte, a distância.

"Não é difícil imaginar que teríamos uma USP predominantemente branca e notavelmente elitista contraposta a uma USP virtual, onde alunos de escola pública, de baixa renda e pretos, pardos e indígenas, ficariam em espaços separados", afirmam.

A Adusp (sindicato docente) criticou o cronograma proposto por reitores e pelo governo. O projeto foi divulgado oficialmente em dezembro. E deve ser aprovado até junho para que possa entrar em vigor já em 2014 (último ano do mandato de Alckmin).

Já a Frente Pró-Cotas Raciais da USP, que reúne professores, alunos e servidores, diz que "dois anos de espera [no curso] atrasarão o desenvolvimento educacional e profissional dos cotistas".

Reservadamente, docentes que acompanham o processo dizem que o programa não avançará se houver resistências no Conselho Universitário, que se reúne em abril.

MÉRITO

Diretor interino da Faculdade de Medicina, José Otávio Costa Auller Júnior também se mostrou contrário, em artigo publicado pela Folha.

A argumentação é diferente dos demais. "Acreditamos que a nova política tenha impacto negativo na qualidade dos alunos selecionados."

Segundo ele, o problema é que as universidades terão de destinar recursos para dar reforço a alunos, em vez de investir em pesquisa.

O reitor da USP, João Grandino Rodas, afirmou que se buscou um projeto que visasse uma maior inclusão de alunos excluídos, sem que houvesse perda do mérito acadêmico. "Agora cabe à nossa comunidade decidir. E arcar com as consequências."

O projeto estadual foi idealizado pelos reitores num momento em que o governo estava pressionado pela adoção das cotas nas universidades federais, que reservarão 50% das suas vagas a estudantes de escolas públicas.

Os idealizadores afirmam que a proposta é um modo de garantir a autonomia das instituições, que podem optar por modelo pensado por elas.

Caso seja rejeitado, dizem, há a possibilidade de a Assembleia Legislativa impor um modelo. Já há projetos tramitando que determinam a adoção de cotas semelhantes à das escolas federais (reserva direta de vagas).

ALUNOS DE ESCOLAS ESTADUAIS

Matéria publicada no Jornal de Jundiai, 22 de fevereiro de 2013.
Alunos de escola estadual somam conquistas em universidades
RAQUEL LOBODA BIONDI
No alto da Vila Aparecida, na Escola Estadual (EEGP) Dr. Eloy de Miranda Chaves, histórias de vida - bem jovens - contornam preconceitos e resultam em conquistas. Dos 50 estudantes do terceiro ano do ensino médio daquela escola (durante o ano letivo de 2012), uma média de 25 alunos foi aprovada em diferentes vestibulares no início deste ano. Fora as universidades públicas, muitos conseguiram bolsa de 100% em universidades particulares da Região, graças ao bom desempenho na prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), parte do Programa Universidade para Todos (ProUni), do Governo Federal.

Os alunos - visivelmente unidos e estudantes daquela escola desde bem novos -, sentem-se transformados, já que foi pelo empenho próprio que conseguiram as vagas. Eles ingressam na vida universitária com novos desafios, mas também com a confiança de que, por meio do aprendizado na escola pública e dos estímulos da família e educadores, podem ir ainda mais longe.
Michel Douglas Cotarelli Momesso, 17 anos, é um dos 11 ex-alunos da escola que conversou com a reportagem do Jornal de Jundiaí Regional. Na bagagem de muitos deles, há alegrias e dificuldades em tentar ser um diferencial na juventude. "Quero ser alguém na vida", disse. Animado entre os colegas, Michel não escondeu a emoção ao recordar alguns obstáculos que enfrentou.
"Sempre fui um aluno esforçado, mas em 2010, no primeiro ano do colegial, meu pai faleceu e tive que começar a trabalhar", contou. "Foi um período difícil. No começo, dormia nas aulas, me sentia cansado e meu rendimento caiu. Mas senti o estímulo da escola e prestei quatro vestibulares." Hoje, Michel cursa Engenharia Civil na Unip de Jundiaí, onde conseguiu, pelo ProUni, bolsa integral na mensalidade.
"Minha mãe está orgulhosa. Sou um exemplo para os meus quatro irmãos", conta ele, que mora com a família no Jardim São Camilo. Michel é o segundo filho mais velho e trabalhou durante os três anos de ensino médio em um supermercado. "Tinha 15 anos quando comecei e, pela idade, não podia ser registrado. Esperei meu aniversário em março de 2011, fiz 16, e consegui o registro", contou satisfeito.
Ao lado da família

Assim como Michel, Bruna Giovanna Curcio, 17 anos, que passou no vestibular da Escola Superior de Educação Física (Esef), em Jundiaí, também trabalhou durante o ensino médio. "Continuo até hoje como recepcionista. Senti dificuldade, mas é uma responsabilidade importante. Daqui para frente nossa vida será desse jeito", disse.
Para o coordenador da escola, Alexandre Pagani Brambila, os bons resultados correspondem ao interesse dos alunos, bem como ao apoio das famílias. "Acompanhei esta turma desde a 5ª série. Eles são ótimos. Também temos um quadro de 35 professores bastante unidos e 90% deles são efetivados, então, não temos aquele rodízio, nem falta de educadores", considerou.
"Temos alunos que se formaram engenheiros e advogados. Mas é a primeira vez que divulgamos", informou a diretora da escola, Nair Micheletti. A escola, segundo a direção, recebe alunos de experiências distintas, mas muitos são de famílias carentes da região da Vila Aparecida.
Uma prova à sociedade

Entre a turma de novos universitários, a maioria reside no próprio bairro, outros no Jardim Tamoio, Jardim São Miguel, Jardim Caçula, Cidade Nova e Corrupira. Eles reconhecem que sofreram preconceito por estudarem em escola pública. Hoje, são vitoriosos. "O ensino dessa escola é muito bom. O Enem é uma prova difícil e tivemos ótimos resultados", contou Maria Carolina da Silva, 17 anos, que cursa Arquitetura e Urbanismo na Unip, também com bolsa de 100% pelo ProUni.
"Além da escola, tivemos o apoio de professores com tarefas em casa e estímulo sobre opções de inscrições e universidades. O período da escola é um aprendizado para a vida. Vamos levar adiante", disse Andressa Rondon, 17 anos, que conseguiu vaga no curso de Dança, da Unicamp. 

GALERA A DERIVA

Matéria publicada no Jornal Folha de São Paulo, 12 de março de 2013.

Galera à deriva

ROSELY SAYÃO

Estamos um tanto quanto perdidos nos relacionamentos que estabelecemos com os mais novos, ocupem eles o papel de filhos ou de alunos.
Num tempo em que ser jovem é o desejo de todas as pessoas, de crianças a velhos, o papel educativo, que é responsabilidade dos adultos, entra em declínio principalmente por causa das atitudes destes últimos.
Quando conversamos com crianças, falamos como se elas percebessem e entendessem o mundo da mesma maneira que nós. Damos ordens e queremos que aprendam que essas ordens devem ser atendidas para sempre, daquele momento em diante.
Fazemos "combinados", que são pequenos contratos, como se elas pudessem bancar sua parte nesses acordos.
Damos explicações complicadas a respeito dos fatos do mundo e, paradoxalmente, protegemos as crianças de tudo. Tudo mesmo. Ou seja: de um lado, tratamos as crianças como se já fossem jovens e, de outro, não reconhecemos seu potencial para aprender a avaliar as situações e perceber seus riscos.
E com os adolescentes, como temos agido?
Aí é que a situação se complica. Pelo que tenho observado, como nós tratamos as crianças como se elas fossem jovens, quando elas se tornam adolescentes há uma tendência a considerá-las adultas antes da hora, antes da entrada na maturidade.
Acontece que a tutela dos adolescentes por parte dos pais e dos professores é fundamental para a finalização do processo educativo e de formação. Sem a presença educativa adulta nessa parte do processo, muitos adolescentes têm ficado à deriva nesse período tão importante da vida.
Dou um exemplo para ilustrar a maneira como estamos expondo os jovens a certo tipo de vivência.
Um conhecido, que me contou o ocorrido, estava em uma calçada conversando com um grupo quando viu chegar um carro dirigido por um rapaz. Ao lado dele, uma garota, com pouco menos de 18 anos, estava com quase todo o corpo para fora da janela do veículo.
O motorista estacionou o carro e esse meu conhecido, sem hesitar, foi imediatamente conversar com a garota. Falou dos perigos que ela corria ao andar no carro daquela maneira, explicou o que poderia acontecer e, nesse momento da conversa, deu-se conta de que a garota poderia reagir mal à abordagem. Ele pensou que ela poderia dizer que ele nada tinha a ver com aquilo, por exemplo. Então se desculpou com a garota por sua intervenção e esperou a reação dela.
Entretanto, a garota o surpreendeu. Dirigiu-se a ele com muito respeito e, logo após sair da posição em que estava no carro, disse que não via motivo algum para que ele se desculpasse porque estava fazendo justamente o que a mãe dela deveria fazer, ou seja, cuidando dela.
Você percebe, caro leitor, o lamento por trás da manifestação dessa jovem? O que ela disse foi que, por sentir-se sem o acompanhamento cuidadoso de um adulto responsável, era capaz de se colocar em situações de perigo.
Muitos adultos acreditam que o jovem quer ser liberado dos cuidados de pais e responsáveis e se sente muito melhor vivendo desacompanhado. Não é verdade.
Claro que os jovens reclamam das orientações que recebem, tentam transgredir as normas que devem acatar, rebelam-se contra os adultos que os acompanham. Mas tudo isso faz parte do jogo.
Talvez seja a maneira que eles têm de agradecer a companhia que fazemos a eles neste momento em que vivem.

ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (Publifolha)